(...)
Era um dia de semana e o trânsito, àquela hora, já estava apertado. Ao volante, eu esperava o sinal abrir quando reparei nos dois. Estavam de pé junto ao meio-fio, semi-cobertos por um poste de luz. Um casal - ambos com mais de 70 anos.
No instante em que pousei os olhos neles, houve o abraço. E depois o beijo. Um beijo de amor entre homem e mulher, que nada tinha de fraterno, um beijo com qualquer coisa de sôfrego, de apressado. Um beijo de despedida.
E em seguida, de fato, separaram-se. O trânsito recomeçava a fluir quando o homem estendeu a mão, chamando um táxi. A mulher sorriu, antes de embarcar. E, de dentro do carro, ainda virou-se e deu adeus pelo vidro de trás. Em resposta, o homem fez uma leve curvatura para a frente, como o galanteio de um cavaleiro com que se acaba de dançar.
Havia nos gestos de ambos uma história e eu logo imaginei um conto de encontros furtivos, de tarde de amor em Copacabana, caminhadas até a esquina, beijos com sabor de proibido.
Cheguei a pensar em acompanhar o táxi para continuar observando a mulher, más ele virou na Canning, desapareceu. E eu segui em frente, desembocando no poente de Ipanema com aqueles dois na retina.
Na minha mente, a imagem do beijo se repetia, ganhando contornos mais definidos, um cenário cada vez mais vivo. (...) Um beijo de amor outonal, com uma beleza própria, peculiar.
Segui pela praia com o sol já caindo, deitando uma luz dourada na calçada de pedras portuguesas, onde àquela hora havia uma multidão, incluindo gente de idade. E fiquei pensando. Não é em qualquer lugar do mundo que duas pessoas mais velhas se beijam no meio da rua, um beijo ardente com tamanho despudor. É preciso terem torno uma cidade lasciva, irreverente, docemente permissiva e sensual.
E que bom que o Rio é um cenário assim.
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